Anaclara era toda claridade quando eu a vi pela primeira vez. Sentei-me ao lado dela rente àquele cheiro de salame que confundia meus instintos. Hoje, quando sinto cheiro de salame, penso em Anaclara.
Tínhamos a mesma idade naquele ano, mas eu me sentia fatalmente infantil em sua companhia. Parece que o que eu queria dizer não queria ser dito e o outro, danado, saía sem permissão. Todo atrapalhado eu na presença luminosa dela.
Mas, o bom é que ela ria e dissipava qualquer nuvem que ameaçasse o sol. Ela ria grande, toda ensalamada, e eu queria sumir no buraco do estômago daquele recreio sem fim. Anaclara e eu. É claro que ela não sabia disso, nem sabia dela, sabia aquelas palavras todas pegajosas que me acompanhavam até em casa, aquela risada avarandada, aqueles cabelos com cheiro de mel. Sabia, também, um pouco de mim.
Eu era o José Roberto dela. Dela porque só ela me chamava assim e até hoje quando preencho cadastro é dela que eu me lembro. Anaclara não gostava de Zé nem Zezinho, ela explicou, mas não prestei atenção porque escorreguei para dentro do olho azul cheiínho de estrelas e só fazia falar desconexo. Acho que dei de não gostar também porque não escutava mais ninguém, andava macio de nuvem em nuvem, sorrindo bobo e quando minha mãe gritava “Zéeeee” aí eu via.
Foi por outras como essa que descobrimos que eu estava apaixonado. Minha mãe, o resto do mundo e depois eu. Ela, nunca.
Eu era seu melhor amigo e até que gostava porque vivia a seus pés, sabia de tudo e até dava conselho que ela nem aí. Só o riso brilhante feito comercial de pasta de dente.
Hoje, toda vez que vejo comercial de pasta de dente e sinto gosto de hortelã escorregando na língua, é nela que eu penso.
Mas, tinha uma coisa que eu fazia e que era bom demais da conta: rabo de cavalo. Um dia, ela me pediu para ajudá-la com aquele penteado e – nossa! – eu fiz com tanto jeito que a Nina, a outra, quer dizer, a melhor amiga mesmo, nunca mais foi precisada. Eu peguei aquele pacote de fios finos e dourados e estiquei delicadamente, não sem antes enfiar meus dedos entre eles e deslizar por todo o comprimento. Daí eu, que ficava em pé atrás da orelha dela pendurado como brinco, puxei tudo para cima e amarrei com o laço de fita: bem no alto do gosto dela.
Eu não sei como foi que eu aprendi, depois ela me disse que eu aprendi fazendo, mas eu acho mesmo é que tem coisas que a gente já sabe dentro da gente e que um dia brota, explode ou simplesmente abandona a casca. É por isso que eu acho que sempre a amei, sem precisar aprender.
“Olha esses dois que um dia se casam” e isso eu ouvi tudinho e soletrado como margaridinhas em buquê. Mas, ela, que importava mais que todos, repetia que “um irmão”.
E no passar dos tempos, eu, que nunca fui para bobo, fazia as coisas como se irmão fosse desde o nascimento. Frequentava casa, amigos e família, sempre perto e protetor, mais fiel do que cachorro magro e dando bons conselhos que, com o tempo, deu de ouvir.
Eu vivia a vida dela com a minha dentro.
E por esse tempo a gente já tinha a mesma idade e vontades. E, o que é para ser é e foi num dia de um jeito que a gente não esperava que aquele milagre do mais milagroso aconteceu na minha vida. Foi num de repente sem tamanho e quando eu vi não vi mais nada. Tudo no quarto dela cheirava fruta e, hoje quando como, é dela que eu me lembro.
Eu estava fazendo o penteado no cabelo. Era de um jeito que sempre foi até o fio enroscar na correntinha e aquele nó todo se embramar ainda mais no meu tentar desembaraçar. E embaraçado estava eu porque tinha medo de machucar, mas ela não porque a gente tinha a mesma idade naquele ano, mas eu sempre me senti infantil perto dela. E era como se risse sem rir, desembaraçada dos tecidos e toda luz na minha mão.
Nem sei e se soubesse não contava nem para mim mesmo. Ela era de uma macieza sumarenta de maçã que eu nunca mais senti e toda vez que eu não sinto é dela que me lembro também. Anaclara era porosa como nenhuma maçã até hoje.
Depois disso só queria saber de penteado, pensei até trabalhar em salão, mas eu só sabia aquela loireza, aqueles fios de ouro e sol que se derramavam no sal da sua pele branca. E ela gostava, ria e se embramava toda cheirosa e macia. Anaclara e eu. E agora ela sabia, mas mesmo sabendo dizia que “mais irmão ainda”.
E eu não entendia enquanto provava todo dia daquela boca de manga e daquele corpo de mel. Nunca entendi pois se também eu tinha uma irmã mas nunca que. Irmã é irmão mesmo se é que se entende e naquelas horas eu nem precisava entender porque só sabia sentir. Sua boca agora tinha gosto de festa. E é por causa do gosto que eu gosto de festa.
Mas, o que é para ser é e foi num dia que a coisa começou a acontecer. Eu estava beijando todas as estrelinhas do céu da boca de Anclara e ela ria de cócegas. Acho que sua mãe estava desconfiada porque me olhava de um jeito que nunca e nunca mais me convidou para lanchar com eles: era agora eu indo fugindo na hora de todos na mesa.
Então, nesse dia das estrelas, subitamente ela parou de rir e me olhou fundo num lugar que nem eu mesmo conhecia e aí aconteceu. Dos seus olhos saiu uma luz tão assustadoramente forte e azul e azul e forte que em poucos segundos todo o quarto parecia um aquário. Era uma luminosidade sobrenatural porque até hoje – e olha que muito tempo se passou – eu ainda não sou capaz de descrevê-la. Era uma essência de luz.
Não sei quanto tempo durou aquilo, mas quando passou e foi na hora em que ela piscou eu devia de estar com cara de peixe porque ela riu e disse que nada de extraordinário tinha acontecido. Apenas o amor: o meu amor. E que bobeira sem tamanho essa.
Mas, pior de tudo: aconteceu mesmo.
Acontece que depois disso Ana começou a luminescer e é difícil explicar porque se trata do maior mistério que eu já vivi em toda minha vida. Por cima da pele branca brotou uma camada de luz que dia a dia aumentava em espessura. Era incrível porque nos lugares onde a roupa cobria a luz parecia querer explodir o tecido, mas nas partes nuas a luminosidade chegava a doer e cegar. Aquilo era um espetáculo desigual.
Ela fazia que não via e desconversava quando eu perguntava Ana o que está acontecendo, Ana? E ela dizia nada e luz para todo que é lado. E foi aí que chorando eu peguei na tua mão e percebi com terror que não era a luz que saía dela, mas era ela que estava se transformando em luz. Começou com os dedos e logo era o resto do corpo: volátil, vaporoso e desumano.
Na casa, eles me olhavam com cara de segredo. Tentei conversar com a mãe e ela desconversou que aquilo já se previa e “o que é para ser é”. E eu na mais pura agonia. Queria pentear os cabelos, mas que cabelos? Tocar seu corpo de pão e mel. E não é que eu não podia, ela deixava, mas eu queria ir mais fundo achar sua alma lá dentro como eu fazia antes, mas nunca que eu chegava porque sua alma estava toda ela exposta.
E eu gritava, agora, enquanto batia com os punhos cerrados nos móveis. Meu deus o que está acontecendo? Ninguém vai fazer nada? Se o que é para ser é então por que ninguém me disse? Eu quero ela de volta. Eu quero seus cabelos seu corpo e seu sorriso e tudo o mais que eu possa tocar e tenha cheiro de salame e festa e fruta.
Mas, nada adiantou. Acho agora que era mesmo para ser daquele jeito.
Com o tempo, ela deixou de sair de casa e nunca mais abriram a porta para mim. Pediram-me segredo e eu segredei por amor e consideração. Calaram, mas não extinguiram o mistério: toda noite, eu, na escuridão da rua, olhava a janela do quarto dela e sabia que aquela luz era ela.
Quando soube que a família estava de mudanças, corri até a casa. Dois caminhões levavam as coisas materiais e no carro preto estavam o pai, a mãe e a filha. Fiquei na calçada no meu tanto respeitoso, infantil e com cara de peixe e acho que por isso mesmo fui recompensado.
O vidro de trás desceu lentamente e eu a vi uma última vez. Era agora apenas uma transparência etérea, um brilho desmedido, um esplendor intenso. Ela sorriu um sorriso e não havia dentro dele nada daquele riso de salames, hortelã, fruta ou festa. Era um sorriso extraordinário, inexplicável, suficiente.
Aproximei-me receoso e tentei tocar pela última vez seus cabelos, mas meus dedos atravessaram seu corpo de luz. Anaclara não pertencia mais a esse mundo. Eu, apenas.
Duas lágrimas que ainda me restavam escorreram junto com a chuva que despencou do céu enquanto o carro seguia seu desconhecido destino. As nuvens escuras encobriram o sol por dias, meses ou anos. Ainda chove muito por aqui, mas de vez em quando o sol brilha forte e me cega quando desafio seu olhar. Nesses dias, de sol ou chuva, é do seu corpo de luz que eu, emocionado, ainda me lembro.
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